Operação Sarasvati: O Dossiê do Esquema de Fraudes, Direcionamento e Obras Fantasma na Rede Estadual de Ensino do Rio e São Paulo


A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro deflagrou, nas primeiras horas da manhã desta quinta-feira, 13 de agosto de 2026, a primeira fase da Operação Sarasvati. A ação ostensiva tem como objetivo central desarticular uma sofisticada organização criminosa especializada em fraudar processos licitatórios, direcionar contratos públicos e promover o superfaturamento sistêmico em obras, reformas e manutenções prediais na rede de escolas públicas do estado. Mobilizando dezenas de policiais civis e peritos criminais, a ofensiva é liderada pela Delegacia Fazendária (Delfaz) em apoio direto com o Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE). Ao todo, as equipes saíram para o cumprimento de 20 mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça do Estado do Rio de Janeiro.

O raio de ação das diligências judiciais demonstra a amplitude e o alcance geográfico das estruturas empresariais e financeiras sob investigação. No Estado do Rio de Janeiro, os agentes cumprem ordens de busca em endereços estratégicos na capital fluminense — com foco nos bairros do Andaraí e no Centro —, além de sedes de empresas, escritórios de contabilidade e residências nos municípios de Maricá, Campos dos Goytacazes, Cabo Frio, Angra dos Reis, Mangaratiba e São Gonçalo. A operação transbordou as fronteiras estaduais e alcançou o Estado de São Paulo, onde equipes da Polícia Civil fluminense, com apoio de unidades locais, cumprem mandados na capital paulista para apreender documentos e mídias em endereços ligados a empresas de fachada e sócios ostensivos do grupo.

O Aparelhamento da Educação e a Imposição de Obras Desnecessárias


A eclosão da Operação Sarasvati traz à tona um dos aspectos mais danosos da corrupção institucionalizada: a captura e o aparelhamento das secretarias de educação por interesses privados em detrimento da comunidade escolar. O desvio de recursos destinados ao ambiente de ensino afeta diretamente milhares de crianças, adolescentes e educadores que enfrentam diariamente a precariedade estrutural de salas de aula, laboratórios e quadras poliesportivas na rede pública fluminense. Quem sofre os impactos reais dessa engrenagem é o cidadão contribuinte e a população escolar vulnerável, que assistem à dilapidação do orçamento público enquanto serviços básicos de infraestrutura pedagógica permanecem sucateados.

As apurações da Delegacia Fazendária revelaram um modus operandi caracterizado pelo cinismo e pela ingerência indevida na rotina administrativa dos colégios estaduais. As investigações apontam que um ex-diretor regional de educação atuava como o principal articulador e facilitador do esquema no interior da máquina pública. Este operador utilizava seu antigo trânsito político e influência burocrática para indicar sistematicamente as empresas que deveriam vencer cotações e contratos emergenciais. O ponto mais estarrecedor identificado pelos investigadores é que diversas escolas estaduais foram palco de obras, reformas e intervenções físicas pesadas sem que os diretores e gestores das unidades tivessem feito qualquer solicitação, pedido de socorro ou consulta prévia às secretarias.

A Anatomia do Esquema: Fracionamento, Inflação de Custos e Laranjas


A investigação da Delfaz esmiuçou o mecanismo utilizado pelos suspeitos para burlar os órgãos de fiscalização e controle do Estado, como o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) e a Controladoria-Geral. Para evitar a realização de concorrências públicas amplas e transparentes, o grupo aplicava a tática do fracionamento de despesas, fatiando grandes intervenções em pequenos contratos diretos ou procedimentos de dispensa de licitação. Dessa forma, serviços simples que exigiriam reparos pontuais — como o conserto de uma calha ou a troca de poucas lâmpadas — eram inflados administrativamente, transformando-se em projetos de grande porte com faturamentos expressivos em favor dos empresários alinhados ao núcleo criminoso.

Os levantamentos periciais indicam também que o grupo realizava intervenções físicas com custos e metragens astronomicamente superiores às demandas reais apresentadas pelos diretores das escolas que realmente necessitavam de reparos. Em casos documentados, orçamentos iniciais para consertos pontuais em telhados ou redes elétricas sofriam aditivos sucessivos, gerando desembolsos de centenas de milhares de reais por obras executadas com material de baixa qualidade e sem a devida comprovação técnica de entrega. A inclusão de endereços no Estado de São Paulo na rota dos mandados de busca visa justamente mapear a rede de empresas de fachada e "laranjas" utilizada para simular concorrência em cotações e lavar o capital oriundo dos contratos fraudados na rede de ensino do Rio de Janeiro.

O Impacto Histórico da Corrupção na Infraestrutura Escolar do RJ


Para compreender a extensão dos danos provocados pelas fraudes investigadas na Operação Sarasvati, é fundamental contextualizar o histórico de vulnerabilidade da rede estadual de ensino no Rio de Janeiro. Nas últimas duas décadas, o setor de infraestrutura da Secretaria de Estado de Educação (Seeduc-RJ) foi repetidamente alvo de apurações policiais e comissões parlamentares de inquérito. A descentralização de recursos e a criação de diretorias regionais, que deveriam agilizar o atendimento às urgências das comunidades locais, acabaram por criar nichos de poder político onde apadrinhados e ex-gestores continuam a exercer influência sobre a distribuição de verbas de manutenção.

A repetição dessas práticas cria um ciclo perverso de precarização. Enquanto milhões de reais são drenados por meio de contratos inflados para reformas não solicitadas, escolas centrais e periféricas sofrem com a falta de climatização básica, vazamentos crônicos, instalações elétricas comprometidas e ausência de acessibilidade para alunos com deficiência. A Operação Sarasvati coloca em evidência como a falta de integridade nos processos de compra e contratação pública compromete a própria qualidade do ensino, uma vez que recursos que poderiam ser aplicados em tecnologia, formação docente e material didático são consumidos por um ecossistema de obras desnecessárias e superfaturadas.

As Ramificações em São Paulo e o Mapeamento da Lavagem de Dinheiro


A realização de buscas e apreensões no estado de São Paulo é considerada um ponto de virada crucial no inquérito conduzido pela Delegacia Fazendária. A utilização de pessoas jurídicas sediadas na capital paulista e em municípios vizinhos era uma estratégia consciente para dificultar o rastreamento dos órgãos de fiscalização do Rio de Janeiro. Essas empresas, muitas vezes sem estrutura operacional compatível ou funcionários registrados, participavam de cotações eletrônicas e licitações no Rio apenas para cobrir propostas e dar aparência de legalidade aos certames que já tinham cartas marcadas.

Além de simular a competitividade, a rede interestadual de empresas operava como duto de lavagem de dinheiro. O fluxo financeiro gerado pelos pagamentos da Secretaria de Educação era rapidamente pulverizado em contas bancárias de terceiros, repassado a empresas de consultoria de fachada e sacado em espécie para o pagamento de propinas e comissões ao núcleo político e administrativo do esquema. O material apreendido pelas equipes no estado vizinho — que inclui computadores, discos rígidos, livros contábeis e aparelhos celulares — passará por perícia minuciosa no Laboratório de Tecnologia contra a Lavagem de Dinheiro (LAB-LD) do Rio de Janeiro, com o objetivo de identificar os beneficiários finais das quantias desviadas.

O Papel dos Gestores Locais e os Próximos Passos das Investigações


Um dos pilares da investigação da Polícia Civil apoia-se nos depoimentos de diretores de escolas que se recusaram a atestar o recebimento de obras não solicitadas ou executadas com irregularidades visíveis. A coragem desses gestores locais foi determinante para apontar as discrepâncias entre o que era faturado pelas empresas nos processos administrativos e o que efetivamente havia sido construído ou reformado no chão da escola. A apuração revelou inclusive episódios em que empresários e representantes das empreiteiras pressionavam diretores para que assinassem laudos de conclusão de obra sem a devida vistoria.

Com o cumprimento dos 20 mandados de busca e apreensão na Operação Sarasvati, a Polícia Civil entra na fase de análise do acervo probatório. Os documentos e dados digitais recolhidos nas residências dos sócios, ex-diretores e nas sedes das empresas serão cruzados com os dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e com as auditorias do Tribunal de Contas. A expectativa dos investigadores é de que o avanço das perícias fundamente novos pedidos de prisão preventiva, bloqueio de bens e indisponibilidade de patrimônio dos envolvidos, visando garantir o ressarcimento dos cofres públicos estaduais.

Análise ND1 RJ


A eclosão da Operação Sarasvati expõe a urgência de uma reformulação profunda nos mecanismos de controle e transparência nas contratações públicas de manutenção escolar no Estado do Rio de Janeiro. A constatação de que ex-gestores regionais e empresários conseguiram estruturar um esquema capaz de impor reformas não solicitadas a colégios estaduais revela brechas graves na governança da Secretaria de Educação e na fiscalização exercida pelos órgãos centrais.

A atuação integrada entre a Delegacia Fazendária (Delfaz) e o Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE) representa um avanço institucional no combate aos crimes contra a administração pública. No entanto, a repressão policial precisa ser acompanhada por medidas administrativas rigorosas, como o aprimoramento do portal de transparência das obras escolares e o fortalecimento do papel fiscalizador dos conselhos de escola. A apuração rigorosa sobre o braço financeiro do esquema em São Paulo e o eventual bloqueio de bens dos articuladores serão determinantes para demonstrar que a corrupção na educação não apenas será punida, mas terá seus custos financeiros integralmente cobrados dos responsáveis.

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