PF diz que lobista afirmou a Vorcaro que Rioprevidência tinha um "dono" para autorizar operações

 

Documentos abertos ao público nesta semana pela Polícia Federal reforçam um dos pontos mais sensíveis da investigação sobre o Banco Master: segundo a corporação, um lobista contratado pelo banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em áudio interceptado, que o Rioprevidência — fundo de previdência dos servidores públicos do Rio de Janeiro — "tinha um dono" e que esse dono precisava dar aval interno para autorizar a compra de papéis financeiros da instituição. A revelação integra a Operação Compliance Zero, que apura o direcionamento de bilhões de reais do fundo estadual para o banco de Vorcaro, hoje sob liquidação pelo Banco Central.

A gravação, feita em outubro de 2023 e enviada diretamente a Vorcaro, foi transcrita pela PF e incluída na representação que embasou uma das fases mais recentes da operação, autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Nela, o interlocutor identificado pelos investigadores como articulador do banqueiro afirma que o Rioprevidência funcionava de forma diferente de outros fundos de previdência do país, porque ali havia uma figura política que precisava liberar cada movimentação financeira internamente antes que qualquer aporte fosse concretizado.

O que diz o áudio

De acordo com a transcrição feita pela Polícia Federal, o lobista disse a Vorcaro que poderia dar um "encaminhamento técnico" às operações, mas que um "encaminhamento político" também seria necessário, já que o órgão estadual "tem dono". A frase se tornou o centro das investigações porque sugere que a liberação dos recursos do fundo não dependia apenas de critérios técnicos ou financeiros, mas de uma autorização política prévia, controlada por uma pessoa específica dentro da estrutura de poder do Rio de Janeiro.

Segundo a PF, entre outubro de 2023 e julho de 2024 o Rioprevidência aplicou cerca de R$ 970 milhões em letras financeiras do Banco Master. Posteriormente, outros R$ 2 bilhões teriam sido destinados a fundos de investimento ligados à instituição, somando um total de quase R$ 3 bilhões em aportes ao longo de dois anos — parte deles realizados, segundo a investigação, mesmo diante de pareceres técnicos contrários e alertas internos sobre os riscos da operação.

Quem é o lobista citado pela PF

Na representação enviada ao STF, a Polícia Federal descreve o autor do áudio como um "articulador, captador e lobista" que atuava na identificação de oportunidades de negócio repassadas a Vorcaro, cabendo a ele a aproximação com autoridades públicas com poder de decisão sobre fundos estatais. Reportagens publicadas nos últimos meses identificaram esse operador como o consultor financeiro Ricardo Siqueira Rodrigues, que já havia sido preso em 2018 em desdobramento da Operação Lava Jato no Rio e fechou acordo de delação premiada na época.

Em entrevistas concedidas à imprensa após ser alvo de busca e apreensão, Rodrigues afirmou ter sido contratado por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado como um dos operadores do banqueiro, para ajudar na captação de recursos junto a regimes próprios de previdência estaduais e municipais. Ele negou publicamente ter atuado como lobista de Vorcaro junto a políticos, mas confirmou o teor do áudio sobre a existência de um "dono" do Rioprevidência e disse pretender revelar o nome dessa pessoa diretamente à Polícia Federal ou à Procuradoria-Geral da República (PGR), e não à imprensa.

Rodrigues chegou a declarar que o então governador Cláudio Castro (PL) tinha influência relevante sobre o fundo, mas afirmou que ele não seria o único político com poder de interferir na liberação dos investimentos — declaração que ampliou as suspeitas sobre outros nomes ainda não formalmente citados na investigação.

Vínculo entre Castro e Vorcaro

Documentos da PF tornados públicos nesta semana, por decisão do ministro André Mendonça, apontam que Cláudio Castro e Daniel Vorcaro mantinham uma relação pessoal próxima, caracterizada por encontros privados, viagens internacionais custeadas pelo banqueiro e trocas de mensagens em que o tratamento evoluiu de "amigo" para "irmão". Segundo a Polícia Federal, essa proximidade coincidiu temporalmente com o direcionamento de parte dos recursos do Rioprevidência ao Banco Master.

Relatórios de inteligência anexados ao inquérito também indicam que Vorcaro teria consultado internamente quanto o Rioprevidência e a Cedae — companhia estadual de saneamento — haviam investido em produtos ligados ao Master pouco antes de encontros com Castro no Palácio Laranjeiras, sede do governo fluminense. Para os investigadores, esse padrão de coincidências reforça a hipótese de que as decisões financeiras do fundo estavam sujeitas a algum tipo de validação política externa à própria autarquia.

O advogado de Cláudio Castro, Carlo Luchione, acompanhou as diligências recentes, mas até a divulgação dos documentos não havia se manifestado publicamente sobre o conteúdo das investigações.

Delação de Vorcaro aponta outros nomes

Em meio à repercussão dos documentos, ganhou força uma proposta de delação premiada apresentada por Vorcaro, ainda não aceita pela Polícia Federal nem pela PGR, na qual o banqueiro afirma que dirigentes de partidos políticos teriam recebido comissões sobre valores captados pelo Master junto a institutos de previdência de diferentes estados. Segundo essa versão, os beneficiários teriam atuado para viabilizar a entrada do banco em fundos de previdência do Rio de Janeiro, do Amapá e do Amazonas, além da própria Cedae, mediante o pagamento de percentuais sobre o total captado.

A Polícia Federal ainda não confirmou publicamente a veracidade dessas alegações, que fazem parte de uma negociação em andamento e podem ser modificadas até uma eventual homologação judicial. As acusações, no entanto, ampliam o alcance da investigação, que até então se concentrava principalmente na relação entre Vorcaro e o ex-governador do Rio.

Estrutura da suposta "captação" de recursos

Segundo a PF, o esquema de captação envolvia uma empresa chamada Mídias Promotora, que teria sido usada para pagar comissões a intermediários responsáveis por aproximar o Banco Master de fundos de previdência públicos. De acordo com a investigação, o consultor identificado como autor do áudio teria recebido uma comissão de 0,6% sobre os valores captados por meio dessa estrutura, o que resultaria em um montante superior a R$ 40 milhões. Em depoimentos à imprensa, porém, o consultor contestou esses números e afirmou ter recebido cerca de R$ 16 milhões pela consultoria prestada a Vorcaro, negando qualquer vínculo com a abertura da empresa citada pela PF.

O que está em jogo para o Rioprevidência

O Rioprevidência foi criado para administrar recursos previdenciários de servidores públicos do estado do Rio de Janeiro, sendo responsável por garantir o pagamento futuro de aposentadorias e pensões. A confirmação de que decisões de investimento do fundo poderiam estar submetidas a uma espécie de aval político paralelo, e não apenas a critérios técnicos de gestão de risco, é vista por especialistas em finanças públicas como um dos pontos mais graves da apuração, já que compromete diretamente a segurança dos recursos destinados aos servidores estaduais.

A Polícia Federal e o Ministério Público Federal (MPF) seguem analisando o material apreendido nos celulares de Vorcaro e de outros investigados, incluindo mensagens, áudios e registros financeiros que podem indicar novos nomes envolvidos na liberação dos aportes. Até o momento, nenhum político foi formalmente indiciado com base especificamente no conteúdo do áudio sobre o "dono" do Rioprevidência, mas o material integra o conjunto de provas usado para justificar as medidas de busca e apreensão já realizadas contra Cláudio Castro e outros alvos da operação.

Próximos passos da investigação

Segundo pessoas ligadas à apuração, a expectativa é que o consultor apontado como autor do áudio preste depoimento formal à Polícia Federal ou diretamente à PGR nas próximas semanas, ocasião em que teria se comprometido a revelar o nome do suposto "dono" do Rioprevidência. Até a publicação desta reportagem, nenhuma nova identidade havia sido formalmente confirmada pelos investigadores nem tornada pública nos autos do processo.

A operação Compliance Zero, batizada em fases anteriores de "Barco de Papel", segue sendo tratada pela Polícia Federal como uma das maiores investigações sobre desvio de recursos previdenciários públicos dos últimos anos no Brasil, com bloqueios judiciais que somam bilhões de reais e desdobramentos que devem continuar a expor a relação entre o mercado financeiro e a política fluminense nas próximas semanas.

Operação Compliance Zero e o histórico de fases contra o Banco Master

Daniel Vorcaro e a liquidação do Banco Master pelo Banco Central

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